A história dos Tocá Rufar está intrinsecamente ligada ao percurso do seu mentor, Rui Júnior. O início encontra-se nas memórias de infância em Vila Nova de Gaia, com os desfiles populares do grupo de bombos Mareantes do Rio Douro, no qual ingressou aos 11 anos. Seguiu-se uma carreira de muita solicitação como percussionista em Portugal, tendo formado os “O Ó Que Som Tem” e colaborando com músicos como José Afonso, Fausto e Júlio Pereira. “Mas, sempre com uma grande carga de insatisfação em termos de realização pessoal”, confidencia Rui Júnior, e justifica “não era suficiente ser apenas músico, eu tinha que intervir a favor daquilo que me incomodava e tentar participar de uma forma construtiva”. O projecto Tocá Rufar nasceu dessa conjugação da ambição musical e de consciência social, tendo tomado forma em Novembro de 96 com o convite da Expo 98 para a criação de um espectáculo sob o símbolo do bombo. Uma década volvida, Rui Júnior fala-nos dos desafios, das dificuldades e de tudo o que implica gerir um projecto cultural auto-sustentável em Portugal.
LAB1.2 (Pisa-Papéis): Como foi criada a estrutura Tocá Rufar? Rui Júnior (Tocá Rufar): No início, em 1996, éramos quatro músicos do "O ó que som tem", e a minha companheira que faleceu ao fim de um ano. Começou no escritório em minha casa, e depois alugámos o rés-do-chão do meu prédio com três assoalhadas. Ainda no mesmo ano, um dos elementos fundadores não aguentou a pressão e abandonou o projecto. Rapidamente, eu, o Fernando Molino e o Mário Santos criámos uma empresa e tivemos que nos disponibilizar a 100%, e deixar de trabalhar noutras áreas para nos concentrarmos neste projecto. Em Fevereiro de 97 arrancámos com reuniões para propor parcerias com as Câmaras, cuja proposta era suportar os custos de dois anos de formação com escolas para formar jovens e crianças com vista à constituição de uma orquestra com 300 elementos para em Junho ou Julho actuarem na Expo.
Qual foi a receptividade dessas autarquias? Das 40 contactadas, três aderiram: a Câmara de Loures, a de Lisboa e a do Seixal. Estipulou-se um valor para cada formando, tendo em conta que nós daríamos formação gratuita. O valor do patrocínio era para o formando, os instrumentos, o fardamento, tudo o que implicava os diversos passos até chegar ao palco. O valor foi de 100 contos por participante, para formação ao longo de dois anos, portanto 300 (participantes) corresponderiam a 6 mil contos. Iniciámos com 850 alunos em 46 escolas desses três concelhos, e depois trabalhámos um ano e tal até seleccionar 300. Depois foi preciso arranjar patrocínio para as fardas e para os instrumentos.
Como foi financiada a formação desses 850 alunos? Por nós, ou seja, não foi financiada. Nessa altura ainda estava viva a minha companheira que era professora e que nos conseguia dar 300 escudos por dia para combustível para nos deslocarmos às escolas. Um tocava bombo, outro caixa e outro timbalão, e ensinávamos com palmas e com o que houvesse à mão, geralmente garrafas de água e caixotes. Conseguimos depois que as câmaras nos cedessem autocarros para fazermos um primeiro grande encontro, juntando os futuros seleccionados dos três concelhos no CCB, que disponibilizou o pátio e garrafas de água, e com a ajuda de alguns músicos juntámos os tais 850. O Inatel patrocinou-nos a primeira compra de instrumentos que foram 150, e logo a seguir os restantes 150.
Mas foi feito um orçamento para o projecto, não? Orçamentámos o projecto em Novembro de 1996 em 30 mil contos, o que seriam hoje 150 mil euro, e era o custo total do trabalho para dois anos, contando com o fardamento, os instrumentos, a logística, deslocações, refeições, as aulas. As contas bateram todas certas. A Câmara de Loures e do Seixal deram 10%, a Câmara de Lisboa 20%, e tínhamos 50%. Faltava-me arranjar contratações para este movimento de forma a que viesse a gerar receita e isso dispus-me a fazer com os recursos que íamos gerando. Fizemos um espectáculo no primeiro grande evento de abertura para a Olá com os 300 participantes, já com instrumentos e a cobrar cachet, por isso antes de chegar o nosso dia contratado pela Expo, já estávamos a trabalhar e a facturar. Chegámos ao dia zero (contratado da Expo) com uma receita bruta de 34 mil contos.
Este foi o vosso momento decisivo? Tínhamos 300 jovens, 300 instrumentos, 300 fardas, quatro mil contos teoricamente no banco, a missão cumprida e agora o que é que vamos fazer. Esse foi sem dúvida o grande momento de viragem. Procurámos e vimos locais, decidimos pelo espaço onde ainda estamos e demos quatro mil euro ao senhorio por forma a assegurar seis meses de renda para termos um local onde guardar os instrumentos. Reunimos com os participantes do projecto da Expo e decidimos avançar com o Tocá Rufar com toda a força. Dirigimo-nos a entidades bancárias para pedir financiamento para comprar secretárias, o primeiro camião, cadeiras, computadores, biombos, equipamentos que ainda hoje aqui se encontra, e endividámo-nos em 40 mil contos.
Foi um grande investimento na altura... Sim, em 99 foi. Falámos novamente com as autarquias, e a Câmara do Seixal foi a única que mostrou vontade de continuar a apoiar o projecto naquele formato, ou seja, o dinheiro não era a fundo perdido. Propusemo-nos a realizar projectos, períodos de formação e a atingir determinados objectivos quantificados por aluno, por hora ... Investimos também na formação de uma estrutura, uma empresa. Ao mesmo tempo constituímos uma associação e até hoje funcionamos com as duas estruturas paralelamente. Três dos sócios fundadores mantêm-se até hoje. A empresa faz a gestão de todo o projecto e a associação faz a gestão da associação.
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